Opinião

Vender a Azores Airlines

Há empresas que podem mudar de dono sem que a vida de uma região mude com elas. A Azores Airlines não é uma dessas empresas.

Terminou o prazo para apresentação de propostas não vinculativas de privatização. Há seis potenciais compradores qualificados para aquisição de pelo menos 75% da companhia.

É uma decisão financeira, naturalmente. A empresa acumulou prejuízos, recebeu apoio público e não pode viver indefinidamente dependente dos contribuintes, sobretudo nos valores conhecidos. Fingir que isso não importa seria irresponsável.

Mas também seria irresponsável fingir que estamos apenas a vender aviões, rotas e uma marca.

Para uma região como a nossa, uma companhia aérea é parte da sua infraestrutura. Uma rota que numa folha de Excel parece pouco rentável pode ser precisamente aquela que mantém uma comunidade emigrante próxima, que traz turistas fora da época alta ou que deveria permitir a uma empresa açoriana chegar a outro mercado com maior facilidade.

O caderno de encargos parece procurar proteger alguns destes interesses: prevê salvaguardas laborais e critérios que vão além do valor oferecido pelas ações. Ainda assim, nenhuma cláusula substitui uma pergunta política fundamental: que Açores vamos ter depois desta privatização?

O melhor comprador não será necessariamente aquele que oferecer mais dinheiro. Poderá ser aquele que compreender que esta companhia opera num mercado, mas serve um território, um povo e a sua economia.

Também não devemos cair na tentação oposta de transformar a SATA num símbolo intocável e ignorar erros de gestão, custos e decisões que nós contribuintes acabamos por pagar.

Privatizar parte da empresa pode ser necessário. Abdicar de estratégia é que nunca poderia ser.

Porque há uma diferença enorme entre vender uma companhia aérea e entregar totalmente a terceiros a decisão sobre a distância a que os Açores ficam no mundo.

 

(Crónica escrita para Rádio)